Igreja, política e crime organizado: as bases da família Pôncio

Com o apoio do crime organizado e sob a proteção de políticos influentes do Rio de Janeiro, uma das mais conhecidas famílias evangélicas – a família Pôncio – construiu fortuna explorando o vício no cigarro. A família lidera um império, que atua praticamente sem pagar impostos na fabricação, importação, licenciamento de marca e comercialização de cigarros de procedência duvidosa, entre outros negócios.

A 9ª fase da Operação Unha e Carne, realizada nesta quinta-feira (29), abre espaço para aprofundar a apuração sobre o patrimônio ligado ao pastor Márcio Poncio, investigado pela Polícia Federal por suspeita de ligação com a chamada Máfia do Cigarro. O patriarca do clã, que inclui vários “influencers cristãos” com milhões de seguidores, é o empresário Marcio José Matos de Souza, mais conhecido como Pastor Pôncio, que se divide numa vida dupla entre líder religioso e empresário de sucesso do crime organizado do Rio.

O grupo tem hoje 28 empresas com faturamento bilionário e avança para o Centro-Oeste e Sul-Sudeste do país. Preso em julho de 2026 durante uma operação contra o crime organizado, o Pastor Pôncio voltou a ser alvo da PF nesta quinta-feira (29). A 9ª fase da Operação Unha e Carne, apura suspeitas de lavagem de dinheiro e ocultação de patrimônio no Rio de Janeiro.

O braço direito do pastor é o genro Jonathan Couto, cantor gospel e “coach” de autoajuda, pai de três dos netos do patriarca – dois com a filha Sarah Pôncio, deputada estadual pelo Solidariedade, e outro com a ex-mulher do filho Saulo Pôncio, a atriz Letícia Almeida, caso que se tornou foco de comentários nas redes sociais.

Marcio Pôncio e o genro Jonathan Couto
Marcio Pôncio e o genro Jonathan Couto

Mas por trás das polêmicas picantes na internet e da pregação liberal nos costumes, o grupo se tornou um dos maiores devedores contumazes do Brasil, com dívidas tributárias de mais de R$ 2,9 bilhões apenas com a União. Com a aprovação do projeto de lei do devedor contumaz, em dezembro, que endurece as medidas contra a inadimplência sistemática, a família Pôncio se tornou alvo natural de investidas dessa natureza. O devedor contumaz é o contribuinte que cria dívidas de forma proposital para alavancar o próprio negócio. Em 2011, houve um salto significativo no valor das dívidas do Grupo Pôncio.

No Estado do Rio, onde conta com apoio tanto do crime quanto de autoridades da política, as informações do Fisco são bastante dispersas e as iniciativas de execução fiscal, curiosamente, nunca avançaram. Pesquisas extensivas na Fazenda do Estado e demais fontes judiciais localizaram pendências da ordem de R$ 13 milhões, já em processo de execução fiscal, referentes principalmente ao pagamento de ICMS, num volume incompatível com o tamanho e a natureza do negócio de comercialização de cigarros no Estado.

O grupo empresarial da família Pôncio ainda tem passado ileso da fiscalização nos últimos 25 anos por contar com a proteção de políticos influentes do Rio de Janeiro, como por exemplo, o ex-presidente da Alerj (Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro), Rodrigo Bacellar, preso por uma semana sob acusação de vazar informações sigilosas de uma operação da Polícia Federal para colegas ligados ao Comando Vermelho.

Sarah Pôncio e o parceiro político, Rodrigo Bacellar.

Filha do Pastor Pôncio, Sarah Pôncio se tornou bastante próxima de Bacellar, que a introduziu ao mundo da política fluminense. Logo que chegou à Alerj, a deputada apoiou a reeleição de Bacellar para presidência da Alerj. Bacellar foi secretário de Estado do governador Claudio Castro e também assessor especial do Tribunal de Contas do Estado do Rio. Os dois foram vistos em visitas a bases eleitorais na Baixada Fluminense e no norte do Estado do Rio, onde a família Pôncio tem interesse de ampliar negócios e influência no meio evangélico. Na Alerj, Sarah Pôncio votou por revogar a prisão de Bacellar, que agora usa tornozeleira eletrônica e se licenciou da presidência da Alerj.

Sarah votou contra a prisão de Rodrigo Bacellar.
Sarah Pôncio em campanha política.

No crime organizado, o principal tutor dos negócios da família é o bicheiro Adilson Oliveira Coutinho Filho, conhecido como Adilsinho, patrono da escola de samba Salgueiro e vizinho de longa data da família Pôncio na Barra da Tijuca. Assim como Marcio Poncio, Adilsinho também vem de Duque de Caxias e cresceu no crime com as máquinas de caça níqueis, cassinos ilegais e hoje domina a máfia do cigarro no Rio de Janeiro. Segundo a Polícia Federal, Adilsinho, que está preso, movimentou mais de R$ 5 bilhões nos últimos dez anos com cigarros contrabandeados, incluindo produtos fabricados e distribuídos pelos Pôncio. O esquema envolve corrupção de agentes públicos, fraudes, lavagem de dinheiro e monopólio territorial, que replica a mesma lógica do jogo do bicho em diversas regiões do Rio de Janeiro, onde a família Pôncio tem negócios e congrega os fiéis por meio da Igreja da Nuvem e da Anabatista.

No caso da família Poncio, a ilegalidade começa na produção nas fábricas de Três Rios e Duque de Caixas, e depois na importação e distribuição de produtos irregulares sem pagar a totalidade de impostos devidos. No Rio, o atacado da produção e importação tanto de insumos quanto do produto final é dominado pelo Comando Vermelho. Já a distribuição no varejo é controlada pelo bicheiro Adilsinho Oliveira, que atua na zona oeste do Rio de Janeiro e na Baixada Fluminense, além de outras milícias presentes na região metropolitana da capital do Estado. Para eliminar concorrentes, a quadrilha de Adilsinho coage comerciantes a venderem apenas os produtos do grupo.

Os políticos do Rio sempre cortejaram a família Pôncio para se aproximar do eleitorado evangélico e ofereciam, como contrapartida, apoio e proteção na máquina pública para os negócios da família ficarem longe da fiscalização e da execução fiscal. Agora, a família tenta capitalizar o prestígio junto aos fiéis e nas redes sociais para se elegerem a cargos públicos. Sarah entrou para a política em 2022, candidatando-se a deputada estadual do Rio de Janeiro. Já Marcio, tentou conquistar, sem sucesso, uma cadeira no Congresso Nacional como deputado federal em 2018 e novamente em 2022. Entretanto, a campanha foi considerada tímida e ele não foi eleito.

Procurado, o advogado de Marcio Pôncio ainda não mandou a defesa.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *